Um choque de culturas na França
Quando cheguei a Antibes, na Riviera Francesa, achei que teria mais dificuldades na vida pessoal do que na profissional. Me enganei
POR DECIUS VALMORBIDA, diretor de marketing da Amadeus IT Group
Quem visita Antibes, cidade de 70 mil habitantes na região francesa de Côte d’Azur, entre Nice e Cannes, fica encantado como azul do mar Mediterrâneo e a vista para os picos nevados dos Alpes. A beleza da paisagem é realçada pela influência romana na arquitetura do centro e pelo castelo onde o artista espanhol Pablo Picasso morou durante seis meses, e que hoje abriga um museu em sua homenagem. Pouca gente sabe, mas Antibes também fica perto de um importante pólo de tecnologia, Sophia-Antipolis, conhecido como Vale do Silício francês. Empresas como SAP, HP e Cisco mantêm centros de pesquisa e desenvolvimento na região.
Depois de três anos na sede da fabricantede software para o mercado de turismo Amadeus em São Paulo, fui transferido para Antibes, em janeiro de 2006. Como não falava uma palavra de francês, achava que teria mais dificuldades na vida pessoal do que no trabalho. Aconteceu exatamente o contrário. Os processos e as regras das empresas são muito arraigados no país. Para promover uma mudança é preciso provar que ela vai ser boa para os negócios com base em pesquisas, plano de dez anos e relatórios de consultorias renomadas. Descobri que, na França, ninguém gosta de assumir riscos.
O maior exemplo de que a cultura empresarial é diferente aconteceu durante uma reunião de diretoria. Discutia-se a remuneração dos executivos, que passariam a receber uma parte fixa pequena e um bônus de acordo com os resultados da empresa, prática comum no Brasil. Percebi que alguma coisa estava errada quando concordei com a mudança e fui fulminado por olhares de censura. Nos bastidores, começou um zunzunzum de que eu não estaria ao lado dos interesses dos demais funcionários. Fui até chamado para uma conversa informal com simpatizantes do sindicato, para explicar melhor minha defesa dos interesses da empresa.
Os mal-entendidos ficaram para trás. Hoje estou adaptado à cultura francesa e à de Antibes. Morar numa cidade pequena tem benefícios, mas também contratempos. Um exemplo: os supermercados não abrem aos domingos. Farmácias e lavanderias fecham às 7 horas da noite. Essas peculiaridades exigem planejamento e adaptação. Muitas vezes, tenho de sair mais cedo do escritório e continuar o trabalho em casa para comprar um remédio para os filhos antes da farmácia fechar, Mas a prova de que sou quase um francês está na festa de final de ano da empresa, que acontece numa estação de esqui nos Alpes. Nessas ocasiões, não faço feio: encaro com desenvoltura as pistas mais dificeis da montanha.









