Para Totvs, software é essencial e sentirá menos efeitos da crise

Fonte: Gazeta Mercantil
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Com a convicção de que vende um produto de primeira necessidade, a fabricante de software de gestão empresarial Totvs observa atentamente os desdobramentos da crise internacional, mas acredita que os impactos para a empresa serão menores do que em outros setores da economia. “Não conheço uma empresa que funcione hoje sem água, luz, telefone e software”, ressalta José Rogério Luiz, vice-presidente financeiro e diretor de relações com investidores da companhia.

O mercado parece compartilhar, ao menos em parte, da tese. A Totvs é uma das poucas novatas da bolsa cuja cotação ainda é superior à da oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês). Nos últimos 12 meses, as ações da empresa registram queda de 15,3%, mas ainda apresentam desempenho superior ao do Ibovespa, principal índice da bolsa, que acumula baixa de 28% no mesmo período.

O executivo, que vem de duas viagens internacionais neste início de ano, para o México e Nova York, conta que tem participado de várias reuniões com investidores. “E a cada encontro recebo uma impressão diferente da crise”, diz. A conclusão a que chegou é a de que os efeitos da desaceleração econômica global serão sentidos de formas diferentes em cada setor. “E como a Totvs oferece sistemas que podem ser implementados em empresas de qualquer segmento, podemos surfar em qualquer onda da economia.”

O alvo da companhia, no entanto, já foi definido e compreende um universo de 470 mil companhias de pequeno e médio porte – com faturamento entre R$ 5 milhões e R$ 3 bilhões. Segundo Luiz, a penetração de sistemas de gestão nesse segmento é estimada em apenas 7%. “Mais cedo ou mais tarde essas empresas, que em sua maioria se valem apenas de planilhas Excel ou sistemas caseiros, precisarão migrar para uma solução integrada”, afirma.

Na visão do executivo, o principal risco é o de execução, ou seja, de a companhia não se mostrar capaz de aproveitar o potencial de mercado e abrir espaço para o avanço da concorrência. Por isso, a fabricante não pretende mudar de foco e brigar com as gigantes do setor como a alemã SAP ou a norte-americana Oracle pelo mercado das grandes empresas. “Queremos ser vistos como a Embraer do software”, compara.

Questionado se a crise não pode adiar os planos de quem pretende se modernizar, o vice-presidente da Totvs acredita que pode ocorrer o fenômeno contrário. “Com o aperto de crédito, os bancos devem aumentar as exigências para conceder novos financiamentos, e um bom sistema de gestão facilita a apresentação das informações financeiras”, explica. Ele avalia que a necessidade de reorganização nas estruturas internas por conta do novo momento econômico também representa uma oportunidade.

Elevador

Outro ponto que torna a empresa menos dependente do ciclo econômico é a composição do faturamento. Quase metade da receita vem dos contratos de manutenção dos sistemas nos 22.500 clientes. O executivo compara o negócio da Totvs ao das empresas de elevadores. “Por mais que a crise seja severa e uma parte das pessoas deixe de pagar o condomínio, dificilmente os demais correrão o risco de deixar o edifício sem o contrato de manutenção dos elevadores.”

Segundo Luiz, o único reflexo da crise sentido pela companhia por enquanto foi o aumento nos prazos para a conclusão de novos negócios, que inclui uma queda de braço mais dura no acerto de valores. Para ele, a turbulência deve ser mais intensa para quem cometeu excessos durante a fase de bonança da economia, principalmente do ponto de vista financeiro. A Totvs, porém, não divulga estimativas de expansão ao mercado. “Acreditamos que, no caso de empresas de crescimento acelerado como a nossa, esse tipo de meta pode acabar se tornando um limitador caso seja alcançada antes do prazo estipulado”, justifica.

Após a incorporação da concorrente Datasul, em julho do ano passado, que formou a nona maior fabricante de software de gestão do mundo, a Totvs mantém o foco no crescimento orgânico, mas não descarta outras aquisições. “Se você me perguntar se pode haver uma operação no curtíssimo prazo, a resposta é não”, afirma.

Para saber quando pode ocorrer um novo movimento, Luiz sugere olhar o calendário. “Os três últimos grandes negócios que realizamos – Logocenter, RM Sistemas e Datasul – ocorreram em um intervalo médio de um ano e dois meses entre cada um”, diz, dando a entender que a empresa pode apresentar novidades ainda este ano. Luiz explica que todos os negócios realizados pela companhia são precedidos de um longo namoro, período em que as culturas de ambos os lados são testadas, já que, no negócio em que atuam, o comprometimento dos funcionários é fundamental. “O nosso principal ativo deixa o prédio todos os dias e precisa querer voltar no dia seguinte”, enfatiza, ao relatar que existem alguns namoros em andamento, “inclusive em outras línguas”.