Cabeça global

Fonte: Você SA

1207 VoceSA Capa Cabeça globalPelo menos uma vez por mês, o paulistano Luiz Cláudio Guerra, de 36 anos, gerente de TI da Nokia Siemens Networks para o Mercosul, acorda às 3 da manhã, toma banho, bebe café, coloca terno e gravata, senta-se em frente ao seu computador, conecta sua webcam e, de sua casa em São Paulo, participa de uma reunião com com colegas chineses que já estão há pelo menos oito horas acordados. Desde 2007, Luiz tem superiores e subordinados espalhados por Argentina, Chile, Alemanha, Estados Unidos e países da Ásia e aprendeu a se adaptar aos horários, costumes e línguas de cada local. “Para me relacionar com todos preciso de jogo de cintura em tempo integral”, diz. Situações como a descrita acima fazem parte do dia a dia de centenas de milhares de profissionais brasileiros, que, por meio das empresas em que trabalham, vão se conectando a um ternacional, é a aptidão para criar relacionamentos e vínculos com pessoas de outras nacionalidades. 0 professor Mansour Javidan explica a complexidade: “Não é fácil tentar ver o mundo pelos olhos dos outros”. A conexão só acontece quando o profissional entende quase completamente qual é a visão de mundo de um estrangeiro, habilidade que, infelizmente, não pode ser desenvolvida dentro das salas de aula ou auditórios de treinamento. “Esse tipo de conhecimento só se adquire na prática”, garante Mansour. Por isso, quem almeja trabalhar com estrangeiros, precisa desde já aprender a se colocar na pele de pessoas que têm interesses diferentes dos seus isso pode ser feito sem sair do país. “Aprender a negociar com um gaúcho e depois com um mineiro amplia o horizonte dos executivos”, explica Cris Foli, do Idecaph. E, uma vez que se está no meio do turbilhão internacional, o primeiro passo para estabelecer vínculos e engajar o estrangeiro é ouvir muito o que ele tem a dizer. É o que faz Victor Baez, da Netgear. Toda vez que chega a um determinado país, ele tem o hábito de passar duas semanas só absorvendo informações sobre os negócios e a cultura. “Só assim me aproximo das pessoas com eficiência”, conta Victor. Além disso, para quem lidera times multiculturais, fazer com que a nova equipe participe das decisões finais também ajuda na criação de laços de confiança. “Um traço comum no engajamento é a vontade de fazer parte de algo maior”, afirma Mansour. É o que faz Luís Alcubierre, da Atento, que estabelece o trabalho colaborativo entre seus subordinados e pares. “A criação conjunta engaja a equipe”, diz. Até pouco tempo, ser global era um luxo para poucos. Hoje, o mundo veio até você. É hora de conquistá-lo.

1207 VoceSA pg52e531 250x165 Cabeça globalSeja para se relacionar com profissionais no exterior, seja para lidar com estrangeiros trabalhando no Brasil, é bom você se preparar para aprender a lidar com a diversidade cultural e com as trocas globais. “Ter facilidade para entender o estrangeiro está se tornando uma competência essencial”, afirma Carmen Migueles, antropóloga e professora da Fundação Dom Cabral. Mas como adquirir mentalidade global A resposta é: desenvolvendo um conjunto de habilidades específicas, presentes nos profissionais que fizeram carreiras internacionais de sucesso. 0 professor Mansour Javidan, da escola de negócios americana Thunderbird Sehool of Global Management, orientou uma pesquisa com 5 000 gerentes de todo o mundo para entender o que é esse conjunto de habilidades, batizado de global mindset, ou mentalidade global. 0 professor descobriu que pessoas curiosas, com espírito de aventura e predisposição para o aprendizado, levam vantagem no jogo internacional. Esse conjunto de fatores permite ao profissional trabalhar e sei bem-sucedido em ambientes com os quais não tem muita familiaridade. A boa notícia é que qualquer uma dessas habiüdades pode ser fortalecida, seja com treinamento específico, seja com experiências práticas.

VONTADE DE APRENDER

1207 VoceSA pg54e551 Cabeça globalA primeira das habilidades que compõem a mentalidade global é a vontade de aprender. Para entender diferentes culturas é necessário estar informado sobre os aspectos históricos, geográficos, culturais, econômicos e políticos dos países em que sua empresa opera. 0 paulistano Luís Alcubierre, de 42 anos, diretor de comunicação corporativa da empresa de call center Atento, que mora em Madri desde o começo deste ano, é um desses profissionais que precisam ficar ligados o tempo todo nas notícias dos 17 países que estão sob sua responsabilidade. “Se você não domina a cultura local, nâo consegue respeito de seus pares”, diz. Antes de ser expatriado para a capital espanhola, em janeiro, Luís se informou incansavelmente sobre o mercado local por meio de telefonemas a colegas nativos, pesquisa em sites de notícias e em livros de negócios. “Só com muita informação se faz um bom trabalho lá fora”, explica o diretor.capacidade e a vontade de aprender formam o que o professor Mansour Javidan chama de capital intelectual, alicerce para o aperfeiçoamento de uma mentalidade globalizada e, de acordo com o professor, a parte mais fácil de desenvolver: “É preciso dedicação, mas há cursos e MBAs voltados para o preparo internacional”. Foi o que fez a bióloga carioca Sheila Purim, de 30 anos, que mora perto de San Diego, na Califórnia, Estados Unidos, e é a responsável pela área de treinamento da Life Technologies, empresa americana de biotecnologia. Em 2008, ela se matriculou no MBA de gestão empresarial da Fundação Getulio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro. No curso conseguiu obter mais informações técnicas sobre o funcionamento das corporações, as estratégias globais das empresas, e cultivou uma boa rede de contatos. Tudo isso lhe rendeu propostas internacionais. “0 curso de MBA foi fundamental para ampliar meus conhecimentos técnicos, já que não tive experiência empresarial na faculdade de biologia”, conta Sheila.

1207 VoceSA pg56e571 Cabeça globalPara suprir essa necessidade de conhecimento internacional, a FGV do Rio de Janeiro criou o curso Global MBA, que, em parceria com universidades do Reino Unido, tem o objetivo de fazer com que os alunos adquiram vivência executiva internacional por meio de workshops online com estudantes de Manchester, Miami, Dubai, Singapura, Caribe, Malásia, Hong Kong e Xangai. Com isso, os alunos do Global MBA conseguem entender as particularidades profissionais e pessoais de diferentes países e se adaptar ao trabalho virtual uma realidade comum em empresas globais. “0 curso prepara para a vivência internacional e se preocupa em habilitar os profissionais que vão trabalhar com estrangeiros no Brasil”, explica Stavros Xanthopoylos, coordenador do MBA.

Sem comunicação, não se estabelece nenhum tipo de relação profissional. Por isso, por mais óbvio que pareça, ter proficiência em outras línguas é essencial para quem quer ser um cidadão do mundo. “0 primeiro passo é aprender um segundo idioma”, afirma o professor Mansour Javidan, da Thunderbird. Nesse sentido, os brasileiros estão numa situação peculiar. Por um lado, o número de profissionais bilíngües ainda é baixo no país. Essa deficiência é hoje uma das maiores razões para a exclusão de executivos de processos de seleção. Por outro lado, aponta o professor Mansour, os brasileiros que aprenderem inglês rapidamente levarão vantagem sobre executivos que têm esse idioma como língua materna e apresentam grande desinteresse por aprender outros idiomas. Mas, em muitos casos, apenas o inglês não basta. A advogada paulistana Adriana Giannini, de 32 anos, consultora de comércio internacional do escritório Trench, Rossi e Watanabe, precisou se dedicar às gramáticas inglesa, francesa, alemã e espanhola para conseguir se comunicar bem com uma gama variada de clientes.

Ela percebeu o peso da proficiência em outras línguas quando trabalhava na Bélgica. “Só quando aprendi bem o francês consegui uma integração mais consistente com meus colegas e chefes”, lembra Adriana.

Mansour Javidan e uma equipe de oito cientistas descobriram, em sua pesquisa sobre mentalidade global, algo recorrente entre os profissionais mais bem avaliados: paixão por diversidade e espírito aventureiro. “Só quem tem predisposição para conhecer novidades se dá bem numa carreira internacional”, diz o professor Mansour. Essas características fazem parte do que os experts batizaram de capital psicológico de uma mente global. “Essas habilidades são desenvolvidas ao longo de toda a vida”, afirma o professor. Porisso, quem tem uma formação multicultural desde a infância tem mais probabilidades de estar aberto a novas experiências internacionais. Victor Baez, diretor-geral para a América Latina da empresa de tecnologia Netgear, é um desses sortudos que têm a diversidade cultural no DNA: a mãe é especializada em relações internacionais e fala sete idiomas, os irmãos moram nos Estados Unidos e ele foi criado no Brasil. “Sou um aficionado por intercâmbios”, diz. A criação multicultural fez com que o executivo voltasse seu plano de carreira para o exterior. Mesmo morando hoje no Brasil, Victor se relaciona com funcionários na América Latina e na Ásia. “Minha criação me ajudou a entender as diferenças entre as nacionalidades”, diz. 0 maior desafio de Victor foi aprender a se relacionar com asiáticos, que são mais arredios a uma liderança estrangeira. “0 importante é estar preparado para lidar com adversidades”, explica.

Mas as pessoas que não tiveram o benefício de ter sido criadas numa família globalizada também podem desenvolver essa habilidade. “Conhecer ambientes diversos no próprio país é um caminho para a quebra de preconceitos”, diz Cris Foli, diretora do Instituto de Desenvolvimento do Capital Humano (Idecaph). Participar de feiras, palestras, workshops em cidades ou estados diferentes faz com que os profissionais vivenciem novas realidades e comecem a ter mais vontade de conhecer diferentes povos. Essas ações podem não substituir uma expatriação, mas enriquecem a experiência profissional. As empresas têm um papel fundamental na disseminação da diversidade. “Programas de coaching e assessment preparam os executivos para entender as diferenças globais”, diz o professor Mansour. É o caso da Ericsson, fabricante de equipamentos de telecomunicação. Com 117 funcionários fora do Brasil, a empresa conduz, para quem tem interesse de ser expatriado, treinamentos sobre condições políticas, culturais e econômicas de países como Estados Unidos e Chile. Além disso, mantém, na intranet, blogs nos quais os expatriados podem compartilhar suas experiências. “Essas práticas aumentam e estimulam a troca de informações”, diz Alexandre Coelho, de 36 anos, diretor de consultoria e gerência de projetos da empresa.

CAPACIDADE DE ADAPTAÇAO

A palavra-chave para quem quer ser bem-sucedido em experiências internacionaiséflexibilidade. Acapacidade de adaptação a situações novas e inusitadas é um atributo fundamental para uma carreira global. “A pessoa deve estar disposta a se adequar ao desconhecido”, explica Cris Foli, do Idecaph. 0 carioca Rafael Santa Rita, de 34 anos, vice-presidente de serviços globais da BRQ, empresa de serviços de tecnologia da informação, sentiu isso na pele. Há três anos teve de se mudar para Nova York para negociar fusões e, apesar de conhecer bem a cidade, precisou alterar alguns hábitos para se integrar à cultura local e se relacionar melhor com os colegas americanos e estrangeiros que, como ele, escolheram a América para viver. “Quem vai aos Estados Unidos precisa compreender os americanos e uma gama de imigrantes”, diz Alfredo Behrens, professor da Fundação Instituto de Administração (FIA), de São Paulo. “Nos Estados Unidos um em cada dez habitantes é estrangeiro” completa. Por isso, Rafael teve de lidar com americanos, paquistaneses e indianos num ambiente de trabalho internacional. “Com os americanos, aprendi a ser mais assertivo; com os indianos, a enfrentar situações adversas”, conta Rafael.

Esta última característica, aliás, é inerente aos brasileiros. De acordo com o professor Sherban Leonardo, da Dom Cabral, por causa da economia instável que o país viveu até os anos 90, os executivos made in Brasil desenvolveram sua carreira tendo de enfrentar condições de crise. Esse cenário ensinou os profissionais com idade por volta de 40 anos, que hoje estão em cargos de liderança, a saber como encarar crises. “Esses gestores já chegam lá fora em vantagem”, diz Sherban. Os líderes mais jovens, que construíram a carreira numa fase de estabilidade econômica, têm de desenvolver jogo de cintura para lidar com situações difíceis. Quando a crise financeira internacional chegou por aqui, em meados de 2008, muitas companhias tiveram de chamar seus executivos mais experientes de volta, pois os mais jovens “espanaram” diante da pressão.

A capacidade de adaptação é necessária para o profissional no dia a dia do escritório e também para a empresa que precisa disseminar sua cultura corporativa no exterior. Com uma cultura baseada no cumprimento de metas rígidas e na meritocracia, a fabricante de cervejas AmBev passou por esse processo quando, em 2005, implantou uma fábrica de bebidas na República Dominicana. “Tivemos que colocar uma cor local na nossa gestão”, diz Nelson José Jamel, diretor financeiro e de relações com investidores, um dos responsáveis pela operação na América Central. “Mas nossa cultura se mostrou forte o bastante para ser adotada pelos funcionários locais”, completa Nelson.

HABILIDADE PARA ENGAJAR

Uma das competências mais complexas para o desenvolvimento da mentalidade global, que faz parte do capital social de uma cabeça in-

0 populismo, na política, e o paternalismo, nas empresas, são uma marca da cultura latino-americana. Para ser um profissional global, é preciso reconhecê-los e aprender a lidar com eles um traço marcante da política brasileira é o populismo. De Getulio Vargas a Lula, diversos líderes caíram na tentação de misturar carisma com demagogia, de tomar medidas que são boas para o eleitor, mas ruins para o país. No entanto, essa característica não é só brasileira. Em toda a história da América Latina podemos encontrar líderes populares e populistas-Hugo Chavez, da Venezuela, é um exemplo recente. Juan Perón, na Argentina, um exemplo clássico. 0 que isso tem a ver com carreira global Tudo. No mundo das empresas, o populismo assume outro nome: paternalismo. A forma de funcionamento é a mesma. 0 líder paternalista toma decisões que beneficiam a equipe, para conquistar lealdade, mesmo sabendo que essas medidas podem prejudicar os resultados da companhia no futuro. Devido a uma maior profissionalização dos negócios, esse tipo de liderança tem hoje formas mais amenas, mas ainda se faz presente nas organizações brasileiras. Reconhecer essa característica é fundamental para um brasileiro que pretende fazer carreira global. A cada cultura que aparecer em seu caminho, inconscientemente, esse profissional poderá reagir de maneira diferente, mas sempre a partir de sua formação original, que tende a ser paternalista.

Esse raciocínio vale para quem vai trabalhar fora, para quem vai liderar equipes de estrangeiros e para quem tem chefes em outros países. Quem não compreende sua própria cultura e não pratica essa reflexão se arrisca a fazer leitura errada de um ambiente globalizado e pode acabar por não se integrar a uma cultura corporativa diferente. 0 professor Alfredo Behrens, da Fundação Instituto de Administração (FIA), de São Paulo, percebeu essa insatisfação entre seus alunos de MBA internacional: “Muitos me diziam que estavam frustrados com seus chefes estrangeiros”.

Para entender o porquê desse desagrado e mapear o estilo de liderança preferido em cada cultura, o o professor realizou uma pesquisa com 147 alunos, 73 brasileiros e 74 estrangeiros. A metodologia do estudo foi inusitada. 0 professor Alfredo pediu para que os participantes assistissem a seis vídeos com os discursos de diferentes líderes de empresas nacionais e internacionais. Durante a sessão os alunos tiveram de listar adjetivos para definir cada gestor e associá-los com os seguintes animais: coruja, águia, leão, vaca, urubu e castor (veja quadro ao lado). 0 chefe preferido por 66% dos alunos estrangeiros e por 51% dos brasileiros foi o coruja: um tipo cujas características são calma, confiança, profissionalismo e inteligência. “Esses são atributos básicos para uma liderança em qualquer parte do mundo”, diz a coach executiva Ada Maria de Assis. 0 que surpreendeu o pesquisador foi constatar que 31% dos brasileiros, apesar de quererem um chefe coruja para si, acreditam que seus colegas se entenderiam melhor com um líder vaca, superprotetor e tipicamente paternalista. “É um traço cultural muito forte”, diz Ada.

O alemão Frank Liesner, de 35 anos, que chegou ao país em 2008 para se tornar diretor financeiro para o Mercosul da Henkel, fabricante das colas Durepoxi e Pritt, precisou se adaptar a esse estilo paternal de gestão. Acostumado com o jeito germânico de liderança, frio e assertivo, Frank teve de se ajustar às necessidades de sua equipe brasileira: “Tomei aulas de cultura local e aprendi que para engajar uma equipe eu precisava ser mais caloroso e protetor”, diz o executivo. Essa adaptação vale também para os brasileiros que vão assumir posições de chefia lá fora prática cada vez mais comum. “0 Brasil já é referência internacional”, diz o professor Sherban Leonardo Cretoiu, diretor de projetos de internacionalização na Fundação Dom Cabral (FDC). 0 Brasil influencia ainda mais a maneira de fazer negócios na América Latina, região na qual estão presentes 53% das transnacionais brasileiras, de acordo com Ranking da FDC.

Teoricamente, como a cultura paternalista está presente em todos os países da região, a adaptação de profissionais brasileiros seria mais tranqüila. No entanto, segundo outra pesquisa, ainda em fase de conclusão, também de Alfredo Behrens, da FIA, apesar da proximidade geográfica, os brasileiros têm dificuldade de assumir posições de liderança em países latinos. “Os brasileiros são muito ignorantes sobre a história e a geografia da região”, diz o professor. Isso é fácil de consertar. 0 pesquisador dá a dica: “Ler literatura e estudar assuntos que fujam do seu cotidiano de trabalho”. Quem vai morar no exterior deve evitar formar as famosas panelinhas com brasileiros. É a partir da convivência com os nativos que um profissional entende uma cultura. “Essa vivência é crucial para a gestão competente de pessoas e negócios”, diz Lucas Copelli, diretor da consultoria Vallua. 0 argentino Sebastian Garay, de 38 anos, diretor de supply da fabricante de alimentos Mars Brasil, levou a lição a sério: ele formou um grupo de colegas brasileiros que o ajudaram a entender o tal jeitinho. “Aprendi como os brasileiros funcionam”, diz.Tome cuidado ao mergulhar numa nova cultura. “0 ideal é agregar conhecimentos sem abandonar a cultura natal”, diz a coach Ada Maria de Assis.

A IMPORTÂNCIA DE SER GLOBAL

Para o argentino Pedro Suarez, presidente da indústria química Dow, as interações com estrangeiros enriquecem a carreira e devem ser buscadas portodos os profissionais em sua carreira executiva, o argentino Pedro Suarez, de 59 anos, presidente para a América Latina da indústria química Dow, viveu na Espanha, na Suíça, nos Estados Unidos e no Brasil. Depois de muitas viagens e 30 anos de profissão, ainda considera a experiência internacional enriquecedora. “Eu me transformo num profissional mais preparado a cada palavra que troco com um estrangeiro”, diz. Na entrevista a seguir, Pedro fala sobre sua experiência internacional e explica o que levar em consideração quando surgir uma oportunidade de expatriação.

Que lições o senhor tirou da experiência internacional

Quem se conecta com novas culturas aprende a se expor e a fazer os resultados aparecer para pessoas com as quais não imaginaria trabalhar. A atuação internacional me fez ser mais paciente com meus colegas e subordinados. Comecei a perceber com mais clareza as diferenças de perfil entre as pessoas.

Quais competências o senhor considera fundamentais para um executivo ser bem-sucedido fora de seu pais

Curiosidade e propensão para enfrentar novas situações. Sem essas características não é possível fazer uma boa carreira internacional. Só consegue sucesso no exterior quem tem vontade de aprender o máximo possível da cultura alheia e constrói relações confiáveis e duradouras com os estrangeiros. Ter intimidade com a língua local é importantíssimo. É a conversa que aproxima as pessoas e faz com que o estrangeiro mergulhe de fato numa cultura nova. Quando está fora de seu país, você tem que agir como uma esponja.

São cada vez mais comuns reports internacionais, times multiculturais ou centros de serviços compartilhados. Essa mentalidade global é uma competência necessária a todos os profissionais, mesmo aqueles que ainda vivem em seu pais de origem Nesse mundo completamente globalizado não é só quem dá volta pelo mundo que deve estabelecer ligações internacionais. Hoje é assim que os negócios funcionam. A tendência é que as empresas se expandam para fora rapidamente. Então, é preciso estar preparado para desenvolver uma mentalidade mais ampla e entender os benefícios de estar conectado com outros países. Quando você está no seu país e conversa pelo telefone ou troca e-mails com um japonês, por exemplo, já sai modificado pela troca, com a sensação de que aprendeu algo novo. É uma deliciosa sensação de plenitude.

Hã uma valorização dos executivos brasileiros e sul-americanos no mercado hoje Por quê

Isso vai acontecer cada vez mais. O mundo dos negócios está enxergando a América do Sul como um local cheio de oportunidades. Os executivos daqui têm qualidades valorizadas pelas empresas internacionais: são mais flexíveis, versáteis e, como já enfrentaram crises econômicas e políticas, possuem frieza e raciocínio para encarar situações adversas. Nas minhas viagens, vejo muitos profissionais latino-americanos fazendo uma carreira bem-sucedida.

A cultura paternalista dos latinoamericanos pode ser um problema para profissionais da região

Há uma diferença entre o líder paternalista, que é aquele que não avalia racionalmente seus subordinados e tem tendência a cometer erros, e o líder humano-valorizado em todos os países. É nesse tipo de gestor que os profissionais devem se espelhar para ter sucesso em qualquer lugar. 0 líder humano entende o ambiente no qual está alocado e se comunica ao máximo para se integrar.

O que o senhor faz para se integrar a uma equipe estrangeira

Quando chego a uma cidade desconhecida, procuro conversar bastante

com meus pares e subordinados. Ouvir é muito importante para apreender os sonhos, as aspirações e as habilidades de cada um. 0 maior desafio é engajar equipes. Na Europa, tive que trabalhar com pessoas de diferentes nacionalidades num mesmo grupo. Consegui motivá-las mostrando que estávamos juntos para cumprir um objetivo comum.

O que um profissional deve levar em conta na hora de aceitar uma experiência no exterior

0 desafio é fantástico. Receber uma proposta de expatriação é sempre uma boa notícia. Quem conseguir essa oportunidade precisa ter uma conversa franca com seus familiares.

A esposa, ou o marido, e os filhos devem ter, assim como o profissional, a mesma curiosidade de conhecer um novo país. O que tenho notado é a maturidade com que os jovens casais enfrentam essa situação. Presencio expatriações de jovens executivos e fico admirado ao ver como o cônjuge também está interessado por ir morar numa nação desconhecida.

Como o profissional deve agir se achar que ainda não esta preparado para ser expatriado

Tem que haver um diálogo sincero entre líder e funcionário. A expatriação é um passo importante e pode ser muito positiva ou negativa para a carreira. Deve-se analisar friamente a vida pessoal para ver se é um bom momento para essa decisão. Já passei por isso. Um subordinado muito talentoso estava num momento complicado com sua família e não podia deixar seu país. Eu queria expatriá-lo, mas, depois da conversa, percebemos que ele não renderia lá fora por causa de problemas pessoais. Alguns anos mais tarde ele finalmente foi expatriado e teve uma atuação brilhante. Quem tem talento pode esperar o momento certo.

Quais são os maiores desafios de um profissional global

A velocidade de adaptação e a criação de relações duradouras. Muitas vezes o profissional não sabe lidar com a pressão, acha que precisa mostrar todo o seu potencial em uma semana e acaba cometendo erros. Tem que ter calma para, antes de agir arrojadamente, conhecer as pessoas e formar um time. E, por mais diferente que o país seja, você sempre encontra pessoas com as quais pode ter pensamentos em comum. A troca é assustadora, no bom sentido. É uma somatória de conhecimentos que você leva para toda a vida.