Brasil, polo exportador de software

O Brasil parece estar saindo de mais esta crise, à frente do mundo desenvolvido que a causou. De uma hora para outra, carros populares, TVs e geladeiras estão com estoque zero nas lojas. Se o País tivesse mais autoconfiança, os empresários nãp teriam cortado produção e demitido, a torto e a direito, antes de ter um quadro mais claro da situação. Tudo indica que houve medo e precipitação.

A verdade é que, traumatizados por várias crises anteriores, sempre que surge uma nova, liberamos todos os fantasmas do armário e agimos como uma manada. De certa maneira, temos essa necessidade impulsiva de estar sempre seguindo diretrizes, ou modelos vindos de fora: se o Primeiro Mundo está demitindo, então temos que demitir também!

Paradoxalmente, nós já fomos capazes de demonstrar liderança e capacidade de execução, em diversas áreas de negócios, como o agribusiness, indústria automobilística, minérios, siderurgia e até indústria aeronáutica.

O Brasil tem tido historicamente um “complexo de Jeca Tatu”, do qual não conseguimos ainda nos livrar. No judô, o lutador menor, com centro de gravidade mais baixo, usa a força e a altura do adversário para derrubá-lo. Fazendo uma analogia, é exatamente isso que o Brasil deveria fazer. Utilizar toda a força dos grandes mercados para ganhar deles (e com eles).

Se hoje, graças à crise, os custos americanos e europeus são muito altos para desenvolver software em seus países, que tal transformar o Brasil numa plataforma de desenvolvimento, para depois exportar o produto final para eles mesmos O Brasil pode aproveitar a crise para sair dela mais forte do que estava em seu início.

No mundo da tecnologia da informação (TI) temos vários bons exemplos de que com iniciativa e criatividade é sim possível liderar sobre os gigantes mundiais. Empresas como a Totvs, nona maior empresa de ERP do mundo, ou Spring Wireless, líder latino-americana em “mobile business” e atuando competitivamente no mundo todo, inclusive Estados Unidos, graças a suas posturas visionárias, muita inovação e coragem para investir, vêm se tornando símbolos de um novo negócio global para o Brasil.

Podemos dizer, sem muito medo de errar, que o Brasil está na iminência de se posicionar como um dos players mais relevantes na indústria de exportação de software, que hoje representa um mercado de US$ 70 bilhões e que em 2010 representará US$ 100 bilhões.

Lamentavelmente, o Brasil ainda participa com menos de 1%, mas esta história está sendo reescrita por empresas como Totvs e Spring Wireless.

As empresas brasileiras perceberam que só por meio de soluções originais e, ao mesmo tempo de alto valor agregado, conseguirão penetrar no atrativo mercado global de software. Temos que pensar grande. O Brasil é um dos países com maior índice de empreendedorismo do mundo!

Os modelos de fora não necessariamente entendem bem a forma de fazermos negócios. Via de regra, os modelos propostos pelos gringos são pouco flexíveis. Por isso, se quisermos nos tornar uma potência mundial em software, precisamos inovar. Mas, como hoje vivemos num mundo integrado, as empresas brasileiras precisam de parceiros que se adaptem a nosso modelo de crescimento.

Gigantes como IBM já utilizam empresas brasileiras para subcontratar o desenvolvimento de software, que posteriormente será exportado. Por que não o inverso Ou seja, empresas brasileiras se unindo para oferecer escala, qualidade e custos competitivos para os gigantes globais.

Em outras palavras, precisamos sair da inércia e usar a potência do adversário, que momentaneamente pode ser um parceiro, para entrar em seus próprios mercados.

Como no judô, estaríamos utilizando a força do adversário para vencê-lo e isso não é apenas lícito, como inteligente.

Marcelo Astrachan, presidente da Cyberlynxx, Rio de Janeiro e São Paulo