Adeus a classe executiva

Fonte: Você SA
Os cortes nos benefícios dentro das empresas chegaram aos diretores e vice-presidentes

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Por ROSELI LOTURCO – Primeiro veio o corte das viagens de trabalho ao exterior. Depois vieram os bônus menores. Agora, mais empresas estão revendo seu quadro de executivos e os rechonchudos pacotes de benefícios oferecidos ao alto escalão. Em 2009, a vida de presidentes, vice-presidentes e diretores não será nada fácil — e pior, sem nenhum glamour. Estudo feito pela Mercer Consulting com mais de 170 médias e grandes empresas com sede no Brasil mostra que 25% delas já efetuaram reduções de até 25% dos cargos de gerência, diretoria e vice- presidência nos últimos cinco meses. Outras 20% disseram que poderão promover ajustes no quadro de executivos até o final de 2009. As companhias mais afetadas são justamente aquelas que estão no epicentro da crise: construção, siderurgia, mineração, automotivo, bens duráveis e exportadoras.

No mês passado, a rede varejista Ponto Frio, que atravessa sérias dificuldades econômicas, extinguiu sete diretorias e se pôs à venda. O Grupo Pão de Açúcar demitiu 20 diretores no fim de 2008 e recentemente remanejou, mais uma vez, cargos na alta gerência. As razões apresentadas foram redução de custos e de burocracia, para aumentar a rentabilidade da companhia. A Natura, do setor de higiene e cosméticos, dispensou três profi ssionais do alto escalão no fim do ano passado sob alegação de reorganização da empresa: um diretor jurídico, um do núcleo de fragrâncias e um de criação e submarcas. A SAP, fabricante de software, depois de dois meses de processo seletivo, escolheu o novo presidente no país, Luís César Verdi. Ele assume o comando da subsidiária no lugar de Alberto Ferreira, que não chegou a completar um ano e meio no posto. Há indícios de que empresas como Brastemp, do grupo Whirlpool, construtora Odebrecht e Grupo Votorantim também devem ajustar algumas diretorias para se adequarem a um período de vendas mais escassas. “O setor financeiro é outro no qual começa a haver um excedente de executivos”, diz Adilson Parrella, sócio-diretor da consultoria Korn/Ferry International.

A pesquisa da Mercer indica ainda que os reajustes de salários-base este ano deverão ocorrer em percentuais menores do que no ano passado, só repondo a infl ação. Cerca de 30% das empresas ouvidas pretendem reduzir em até 50% os aumentos salariais previstos em orçamento para 2009. Com relação aos benefícios, devem rever os planos de saúde e diminuir regalias. Políticas em relação à troca de automóveis, ao uso de combustível e quilometragem livres devem ficar restritas a limites menores.

AÇÕES TRABALHISTAS

As demissões sem justa causa e as reduções de benefícios começam a gerar uma onda de processos trabalhistas dos executivos contra as grandes empresas. A legislação brasileira pode vir a garantir o pagamento de indenizações milionárias. Os precedentes são raros, mas todos com ganho de causa ao empregado. “Esse é um comportamento absolutamente novo. Tenho 20 casos dessa natureza, que entraram no meu escritório nos últimos três meses. Antes era um a cada três anos”, diz Antonio Carlos Vianna de Barros, sócio da Demarest & Almeida Advogados. Segundo ele, aumentou o número de executivos que estão buscando a Justiça do Trabalho para assegurar seus direitos. Em alguns casos, isso acontece em resposta às ações movidas pelas empresas, que demitem seus diretores e os acionam na Justiça pelos prejuízos decorrentes da crise. Um exemplo é a Sadia, que no mês passado decidiu mover ação contra Adriano Lima Ferreira, ex-diretor de finanças e desenvolvimento corporativo da companhia. O executivo será processado por operação com derivativos que causou um prejuízo líquido de 2,48 bilhões de reais em 2008. Adriano vai responder com outro processo.

A maioria dos casos, no entanto, envolve multinacionais com sede no país que querem adotar aqui práticas trabalhistas de seus países de origem — como a redução salarial e do plano de benefícios. Nos Estados Unidos, as relações de trabalho se dão por contratos entre o executivo e a empresa. No Brasil, os contratos são regidos pelas leis, que se sobrepõem a esses acordos. A advogada Ana Paula Ferreira Vizintini, sócia da Trench, Rossi e Watanabe Advogados, explica que os contratos de trabalho estabelecidos entre executivos e empresas no Brasil são recheados de benefícios diferenciados. Daqui pra frente, diz ela, esses acordos serão tratados com o mesmo rigor que a Justiça do Trabalho trata garantias como férias, FGTS e 13o salário, por exemplo. “Os executivos estão percebendo isso e estão mudando de postura. Querem que todos os benefícios extras sejam incorporados no processo de rescisão”, diz a advogada.